SMETAK PARA QUEM SOUBER

Augusto de Campos

Smetak chega ao seu Segundo disco: Interregno - Walter Smetak & Conjunto de Microtons (selo FCEB/Marcus Pereira), graças ao patrocínio da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Eis aí um fato auspicioso. No rico e diferenciado panorama da música brasileira há muito espaço para a canção popular, pouco espaço para a música (instrumental) popular e quase nenhum para a música impopular, também chamada erudita, em especial a contemporânea, condenada, na maior parte, ao descaso editorial.

Há, inegavelmente, uma distorção cultural entre nós. Conhecem-se, prestigiam-se e editam-se os melhores da música popular, daqui e de fora, com uma ou outra omissão. Mas atinge dimensões apocalípticas a falta de gravações de música do nosso tempo, não ligada ao setor do entertainement, isto é, aquela que não tenha apenas a função de divertir e fazer passar o tempo, mas que envolva um aprofundamento da nossa sensibilidade e uma ampliação do nosso conhecimento; que demande, como resposta, não apenas balanço hipnótico dos quadris, mas dança do intelecto, chispa e circulação do mais humano dos atributos do animal chamado homem: o cérebro.

Essa carência informativa faz perder o senso de proporção e conduz a um ilusório ufanismo. Mas a verdade é que, em termos de audição de música nova, quase não entramos no século XX. Por isso, é preciso cobrar das nossas gravações que deem mais atenção ao fascinante mundo sonoro que insistem em sequestrar dos nossos ouvidos - o dos inventores e experimentadores da linguagem musical contemporêna. O público brasileiro tem condições de receber mais do que a miserável ração de música moderna que lhe tem sido ministrada. Afinal, já dizia Varèse, quando argumentavam com o "divórcio" da música moderna e do público: "Como falar em divórcio se nem ao menos houve casamento?"

Entre as mais notáveis lacunas do catálogo nacional estão as obras de Anton Webern (1883-1945), Edgard Varèse (1883-1965) e John Cage. De Webern só há uma gravação das Variações para Piano, na interpretação da brasileira Clara Sverner (Odeon, 1974). Varèse compareceu por acaso, há muitos anos, com a extraordinária Ionisação (1933), para quarenta instrumentos de percussão, num LP chamado Rompendo a Barreira do Som (Audio-100.002), contendo execuções da orquestra de percussão de Paul Price. Um disco que parece ter sido justificado, à época, como teste de alta fidelidade… John Cage, talvez o maior músico vivo, nunca foi editado no Brasil. De Schoenberg, Berg, Ives, poucas obras levaram selo nacional. As gravadoras são mais complacentes com Bartok, mas nunca fomos considerados dignos de ouvir os Quartetos, sua obra mais radical e profunda. Stravinski ficou reduzido ao Pássaro de Fogo, à Sagração da Primavera e pouca coisa mais.

Não dá pra desfiar todo o roal de obras importantíssimas desses e outros compositores, já históricos; o mesmo se passa com os mais do que maduros "novo músicos" da safra dos anos 50, como Stockhausen, Boulez, Berio, dos quais pinga, aqui e ali, uma que outra coisa, ou com os nunca registrados, como os americanos Morton Feldman e Earle Brown. Um vácuo informativo que recobre oitenta anos, quase um século de produção musical!

Se é este o quadro da divulgação da música de fora, que já vem pronta e embalada, pode-se imaginar as dificuldades que encontra um compositor daqui para ver produzido e editado um disco que documente o seu trabalho.

Anton Walter Smetak, suiço que adotou o Brasil em 1937, fixando-se na Bahia a partir de 1957, nasceu em 1913. É um ano mais moço que Cage. Seu primeiro disco (Philips 6349-110) só veio a ser gravado em 1974. Produzido por Roberto Santana e Caetano Veloso e montado por este e por Gil, o LP recebeu um tratamento excepcional até no seu aspecto gráfico, com a bela capa dupla que teve orientação visual de Rogério Duarte. Não fora o apoio dos baianos, provavelmente Smetak seria até hoje ignorado.

Violoncelista, criador de música e de instrumentos-esculturas ("plásticas sonoras"), a partir da combinação cabaça & cordas, Smetak é também teórico, e tem expressado sua idéias cósmico-musicais em textos e entrevistas, num português aproximativo, entre poético e místico. No plano propriamente musical, caminhou, com resolução, para o microtonalismo. Ele acredita que através da "consciência dos microtons" e da superação do emocional se chegará "à clareza da percepção da diversidade sonora" e a "ampliação da tônica e sua substituição pelo Som Gerador" e a "ampliação da série de 12 para 36 sons como uma prática para se obter a conscientização dos valores". Numa entrevista a Renato de Moraes (1975), ele afirmou que procura "diferenciar claramente o fazer som, um meio de despertar novas faculdades da percepção mental, e o fazer música, apenas um acalento para velhas faculdades da consciência". Nesse sentido, "mais do que o mistério da de percussão de Paul Price. Um disco que parece ter sido justificado, à época, como teste de alta fidelidade… John Cage, talvez o maior músico vivo, nunca foi editado no Brasil. De Schoenberg, Berg, Ives, poucas obras levaram selo nacional. As gravadoras são mais complacentes com Bartok, mas nunca fomos considerados dignos de ouvir os Quartetos, sua obra mais radical e profunda. Stravinski ficou reduzido ao Pássaro de Fogo, à Sagração da Primavera e pouca coisa mais.

Não dá pra desfiar todo o roal de obras importantíssimas desses e outros compositores, já históricos; o mesmo se passa com os mais do que maduros "novo músicos" da safra dos anos 50, como Stockhausen, Boulez, Berio, dos quais pinga, aqui e ali, uma que outra coisa, ou com os nunca registrados, como os americanos Morton Feldman e Earle Brown. Um vácuo informativo que recobre oitenta anos, quase um século de produção musical!

Se é este o quadro da divulgação da música de fora, que já vem pronta e embalada, pode-se imaginar as dificuldades que encontra um compositor daqui para ver produzido e editado um disco que documente o seu trabalho.

Anton Walter Smetak, suiço que adotou o Brasil em 1937, fixando-se na Bahia a partir de 1957, nasceu em 1913. É um ano mais moço que Cage. Seu primeiro disco (Philips 6349-110) só veio a ser gravado em 1974. Produzido por Roberto Santana e Caetano Veloso e montado por este e por Gil, o LP recebeu um tratamento excepcional até no seu aspecto gráfico, com a bela capa dupla que teve orientação visual de Rogério Duarte. Não fora o apoio dos baianos, provavelmente Smetak seria até hoje ignorado.

Violoncelista, criador de música e de instrumentos-esculturas ("plásticas sonoras"), a partir da combinação cabaça & cordas, Smetak é também teórico, e tem expressado sua idéias cósmico-musicais em textos e entrevistas, num português aproximativo, entre poético e místico. No plano propriamente musical, caminhou, com resolução, para o microtonalismo. Ele acredita que através da "consciência dos microtons" e da superação do emocional se chegará "à clareza da percepção da diversidade sonora" e a "ampliação da tônica e sua substituição pelo Som Gerador" e a "ampliação da série de 12 para 36 sons como uma prática para se obter a conscientização dos valores". Numa entrevista a Renato de Moraes (1975), ele afirmou que procura "diferenciar claramente o fazer som, um meio de despertar novas faculdades da percepção mental, e o fazer música, apenas um acalento para velhas faculdades da consciência". Nesse sentido, "mais do que o mistério da música" interessa-lhe "o mistério do som".

Embora Smetak não se considere representante de qualquer linha de "contemporâneos e vanguardistas", é impossível deixar de situá-lo no tempo histórico. E ao fazê-lo observamos que, à parte as características personalíssimas do seu trabalho, ele se insere num quadro de preocupações artísticas e espirituais comuns a alguns outros mestres modernos que têm buscado, na pesquisa de microtom, ampliar o nosso horizonte de sensibilidade, rompendo com enraizados hábitos auditivos e aproximando a arte ocidental das práticas musicais do Oriente.

Este é o caso do tcheco Alois Haba (1893-1973), o grande arauto do microtonalismo em nosso século. Entre os pioneiros do microtonalismo estão, também, os compositores russos Nikolai Obuhov e Ivan Vishniegrádski. Na América, o microtonalismo teve o seu profeta no mexicano Julián Carrillo (1875-1965), que chegou a experimentar com 96 subdivisões dentro de uma oitava. Charles Ives (1874-1954), precursor de tantas linguagens novas, também não desdenhou o microtom, embora não o cultivasse sistematicamente. Compôs três peças que são executadas em dois pianos afinados com diferença de ¼ de tom (registradas no LP Odyssey 32 16 0162). E escreveu sobre o assunto um interessante trabalho, "Algumas Impressões obre Quartos de Tom". Outro americano, Harry Partch (1901-1974), devotou-se à composição microtonal e à construção de instrumentos apropriados para uma escala de 43 sons por oitava, entre os quais um harmônio ("chromelodeon") e um órgão ("ptolemy"), assim como cítaras, marimbas e guitarras microtonizadas. O catálogo Schwann consigna três LPs dedicados a essa música que podemos desesperar de ver reprensada entre nós.

Os intervalos menores que o semitom são comuns na tradição de países orientais, como a Índia, onde são denominados "srutis". No Ocidente, porém, o seu uso é praticamente desconhecido. Assim, se o microtonalismo de Haba, Obuhov e Vishniegrádski encontra reforço no folclore eslávico, impregnado de Oriente, o dos desbravadores musicais deste lado do Oceano só têm apoio na nossa disponibilidade criativa. Mas quem sabe se os artistas daqui, embora formados pela cultura européia, não se sentirão mais descompromissados para a livre experimentação, por se acharem mais distantes dos centros tradicionais? É a tese de Cage. E já era a de Oswald: Antropofagia.

"Até que ponto as nossas reações emocionais, os hábitos do nosso ouvido, as nossas predileções, serão para nós uma ajuda ou um obstáculo?" - indaga Ives em seu música" interessa-lhe "o mistério do som".

Embora Smetak não se considere representante de qualquer linha de "contemporâneos e vanguardistas", é impossível deixar de situá-lo no tempo histórico. E ao fazê-lo observamos que, à parte as características personalíssimas do seu trabalho, ele se insere num quadro de preocupações artísticas e espirituais comuns a alguns outros mestres modernos que têm buscado, na pesquisa de microtom, ampliar o nosso horizonte de sensibilidade, rompendo com enraizados hábitos auditivos e aproximando a arte ocidental das práticas musicais do Oriente.

Este é o caso do tcheco Alois Haba (1893-1973), o grande arauto do microtonalismo em nosso século. Entre os pioneiros do microtonalismo estão, também, os compositores russos Nikolai Obuhov e Ivan Vishniegrádski. Na América, o microtonalismo teve o seu profeta no mexicano Julián Carrillo (1875-1965), que chegou a experimentar com 96 subdivisões dentro de uma oitava. Charles Ives (1874-1954), precursor de tantas linguagens novas, também não desdenhou o microtom, embora não o cultivasse sistematicamente. Compôs três peças que são executadas em dois pianos afinados com diferença de ¼ de tom (registradas no LP Odyssey 32 16 0162). E escreveu sobre o assunto um interessante trabalho, "Algumas Impressões obre Quartos de Tom". Outro americano, Harry Partch (1901-1974), devotou-se à composição microtonal e à construção de instrumentos apropriados para uma escala de 43 sons por oitava, entre os quais um harmônio ("chromelodeon") e um órgão ("ptolemy"), assim como cítaras, marimbas e guitarras microtonizadas. O catálogo Schwann consigna três LPs dedicados a essa música que podemos desesperar de ver reprensada entre nós.

Os intervalos menores que o semitom são comuns na tradição de países orientais, como a Índia, onde são denominados "srutis". No Ocidente, porém, o seu uso é praticamente desconhecido. Assim, se o microtonalismo de Haba, Obuhov e Vishniegrádski encontra reforço no folclore eslávico, impregnado de Oriente, o dos desbravadores musicais deste lado do Oceano só têm apoio na nossa disponibilidade criativa. Mas quem sabe se os artistas daqui, embora formados pela cultura européia, não se sentirão mais descompromissados para a livre experimentação, por se acharem mais distantes dos centros tradicionais? É a tese de Cage. E já era a de Oswald: Antropofagia.

"Até que ponto as nossas reações emocionais, os hábitos do nosso ouvido, as nossas predileções, serão para nós uma ajuda ou um obstáculo?" - indaga Ives em seu estudo sobre os quartos de tom. Como Smetak, ele crê que quando o homem souber ouvir os microtons ele traduzirá com mais liberdade as milhares de ondas sonoras que estão ao seu redor. Isso permitirá que ele amplie a sua consciência espiritual e se aproxime mais da Natureza, como queria Thoreau, o filósofo americano invocado po Ives e por Cage, que se deliciava com os harpejos eólicos dos fios de telégrafo nas matas de Walden.

Foi essa mesma "harpa da Natureza" - a melodia contínua de um violão exposto ao vento, tal como se ouve na faixa de abertura do primeiro LP de Smetak, que o levou a explorar o mundo dos microtons. Aquele disco já nos dera muito surpresas sonoras. Entre elas as improvisações vocais de Caetano - um canto-de-ruídos guturais que não tem paralelo em nossa música (popular ou erudita). No conjunto, a gravação funcionava como um painel das propostas compositivas e das sonoridades pesquisadas por Smetak. Pelos nossos ouvidos desfilaram, pela primeira vez, alguns dentre os muitos (cerca de cem) instrumentos criados por esse anti-luthier - insólitas bricolages que vão da vassoura ao móbile. Os mais estranhos sons ecoavam pelas cabeças-cabaças de "vinas", "choris" (choro-e-riso), "sóis", "árvores" e "rondas" e percorriam as cordas dissonantes de "peixes", "aranhas" e "constelações".

Mas se no disco anterior, duas faixas, "Sarabanda" e "Preludiando com Joseba" (Joseba = Johann Sebastian Bach) retinham um elo ou um eco da tradição, neste no novo LP INTERREGNO - Walter Smetak & Conjunto de Microtone (selo FCEB/Marcus Pereira ) Smetak parece direcionar ainda mais o seu trabalho para o "mistério do som".

À atomização microtonal junta-se agora a pesquisa do "som prolongado", que requereu a participação de um órgão eletrônico. Os macro-sons puxados pelo órgão misturam-se às fibrilações sonoras dos violões microtonizados e dos múltiplos artefatos instrumentais de Smetak. E confraternizam com as quase-vozes dos "boréis" (borés com bocal) e das flautas xavantinas, estabelecendo um nexo instigante com as culturas indígenas do Xingu, mais próximas do Oriente que do Ocidente. Trata-se, em grande parte, de música improvisada, que empenha todo um grupo, no qual encontramos excelentes músicos, como Tuzé de Abreu. Uma opção cada vez mais frequente na música erudita de hoje, de Cage a Stockhausen.

O resultado é extraordinário. E comovente, se se considera o trabalho difícil e solitário de Smetak, por tantos anos. Verdadeira deslavagem cerebral.

Há músicas para todos os gostos e para todas as horas. Quem só pensa em embalar os ouvidos, que fique no som-nosso-de-cada-dia. Mas quem quiser mais sabor e mais saber, não deixe de ouvir esses extras-sons que conseguiram varar o bloqueio informativo das audições de rotina. Como já disse Smetak: "Salve-se quem souber!"

(Extraido de texto publicado na revista SomTrês, nº 22, outubro de 1980. O texto integral do artigo acha-se no livro Música de Invenção, São Paulo, Editora Perspetiva, 1998).